domingo, 28 de Outubro de 2007

Manifesto 12 - Sentinela


Os seus lábios tremiam. Os seus olhos, arregalados e brancos, obrigavam todos os planos que o rodeavam a vacilar. As caras que o seguiam estavam imóveis, mas contorciam-se num último esgar gelado. Pairavam ao nível do seu olhar, impedindo-o de encontrar o horizonte, a saída, que de qualquer modo estaria ocultada pelo denso exército de árvores.
Estavam todos os seus músculos tensos e hirtos, as suas magras mãos suadas apertadas contra os ombros; o pescoço esticado talvez nos ajude a compara-lo a um animal assustado.
Toda a floresta estava silenciosa, animal nenhum ousava revelar a sua presença, o vento não se notava... O ar pairava pesado e húmido.
À medida que avançava na floresta, correndo desenfreadamente, respirando ofegantemente, as poucas luzes douradas que surgiam aqui e dali, entre as ramagens começavam-se a desvanecer... Os pulmões apertavam-lhe o peito, faltava-lhe o ar... A escuridão domina o espaço.

Inspira... Expira. A sua respiração ofegante ecoa.

Corre.

Uma mão humana agarra-lhe o tornozelo. Pára subitamente, caindo no chão. O bater do seu coração torna-se tão violento que se assemelha a uma melodia... A um canto agressivo e sedento de morte.
Um delírio selvático contamina todo o seu corpo, impulsionando-o à ânsia de sangue.
Segurando-o pelos cabelos, agarra bruscamente a cabeça de quem o atacou. E completamente às escuras, dá um rápido soco... no ar. Cai para trás, sentindo a exacta dor que sentiria quem fosse esmurrado, mas multiplicada por muito. O atacante foge rapidamente, deixando-o no chão. O sangue jorra dos seus lábios e do seu pescoço, manchando a sua pele suada e suja. O ritual terminara, as caras deixaram de o perseguir... O horizonte de árvores surge novamente, mas era tarde de mais, morreria em momentos. Mas mesmo assim, dos seus lábios ainda trémulos, notava-se um sorriso de extrema satisfação.

sábado, 27 de Outubro de 2007

Manifesto 11 - Violence

Ready for a bit of the old ultra-violence?

Estudar Pessoa motiva qualquer um para (re) começar a escrever poesia...
Contradigo este facto, apenas pela teimosia influenciada por uma muito próxima contra-cultura.

Hoje não escrevo.
Nem tento escrever.
Hoje, pela primeira vez não minto.
Saco do meu revólver e espanco-te (sim, espanco-te) até perderes os sentidos.
Mas hoje poupo-me.
Poupo os momentos aterrorizadores de vergonha que sentiria, com a mais absoluta das certezas, ao ler um excerto na noite seguinte...


Deste modo:


As minhas obsessões e manias amenam...
Mina, bonita, engorda.
Ludwig entra em cena.
Mas as minhas paixões ainda dominam.



"Viddy well, little brother... Viddy well"
U l t r a - v i o l e n c e

sexta-feira, 19 de Outubro de 2007

Manifesto 10 - Morte Provisória

Criado o ano passado... As emoções mantêm-se inalteradas, o assunto não se modifica, o sujeito é o mesmo... A poesia continua a mesma nojeira, mas simboliza na perfeição o que me constitui = zero, nada.


(1) - Johnny Hallyday.



-----o-----



Morte Provisória

(1)

Uma rapidez de imagens espelhadas apodera-se de mim enquanto arrasto o corpo esgotado pelo chão. É apenas então, numa entrada triunfante, que entra o fim; numa lentidão de fumo mergulhada em lágrimas. Vejo o seu corpo: de dedos retorcidos, agarrando o cigarro apagado, este dorme deitado numa estranha agitação, movendo-se nos lábios. Tudo isto enquanto os meus dedos lhe afagam o corpo e cansam os sentidos, numa lentidão de fumo mergulhada em lágrimas.


As ruas

estão cheias

de gente errada,

corpos trocados por saliva,

a mesma saliva que beijara aquela minha flor.


As casas

estão cheias

de gente com medo,

corpos estendidos ao comprido,

rodeados pela mesma saliva que beijara aquela minha dor.

sábado, 13 de Outubro de 2007

Manifesto 9 - A Figura Humana


Desde os primórdios da arte, desde as fantásticas pinturas rupestres da antiguidade (1), que o ser humano demonstra um grande fascínio pela sua própria imagem. Artistas renascentistas como Michelangelo (2), Leonardo da Vinci ou Rafael (3), aprofundaram esse estudo da figura humana, aplicando os seus conhecimentos anatómicos à arte clássica.

(1) Pinturas Rupestres de Monfrague


É esse estu
do dos músculos, do esqueleto, do gesto e da expressão, que constitui a anatomia artística. Essa, por sua vez, aprofunda o nosso conhecimento acerca da figura humana, dando-nos conhecimento e técnica muito úteis à prática da arte.

Desde então, a representação da figura humana tem-se transformado, alterado, desenvolvido (para o bem e para o mal). Artistas impressionistas como Degas estudaram os mais distintos pintores do renascimento, para assim poderem criar as suas obras com uma mais ampla visão. Degas misturava o estilo impressionista, inspirado em Manet, com bases assentes na Renascença Italiana.




(2)Michelangelo, “Nu, sentado”


Outros artistas, como Salvador Dalí , aplicaram o estudo da anatomia, da figura humana, de modo a superarem o "real". Este artista catalão teve uma infância muito ocupada, em que estudou afincadamente o corpo humano, a sua forma, expressão e movimento. Foi esse estudo que lhe permitiu criar as suas fantásticas obras surrealistas.


Assim podemos concluir que o estudo da figura humana, teve e tem, um gigantesco peso na arte ao longo dos séculos. É incrivelmente difícil criar qualquer imagem que represente o Homem, sem ter em conta o que fizeram os grandes mestres renascentistas. Todos estamos, directa ou indirectamente, influenciados pelo estudo meticuloso de Michelangelo, ou pelo génio de Rafael.


3) Rafael, “Estudo de cabeças de apóstolos”

É portanto indispensável, o estudo destes artistas, como base para, mais tarde, poder criar livre e espontaneamente.

Manifesto 8 - A Premonição da Guerra Civil

Construção Mole com Feijões Cozidos (premonição da Guerra civil)
Salvador Dalí, 1936

Devo começar por esclarece-lo acerca do verdadeiro significado da arte surreal, pois existem muitos mal-entendidos em relação a este estilo de arte moderna. Não, não é a acerca da loucura de certos artistas, de ideias disparatadas, ou de frases ou imagens aleatórias. Que isso fique bem esclarecido: surrealismo não é arte aleatória.

A arte surrealista, um movimento revolucionário, baseia-se nos elementos de surpresa, de imaginação ilimitada. Como disse André Breton, um poeta francês, fundador do surrealismo como estilo: “ Surrealismo é puro automatismo psíquico, a partir do qual se exprime, verbalmente ou por escrito, o verdadeiro mecanismo do pensamento”. É portanto, como qualquer outro movimento artístico, uma forma de expressão interior, mas muito mais analítica (ao mesmo tempo expressiva), realista e verdadeira do que qualquer outra. O pintor surrealista “despeja” toda a sua alma (com alma digo passado, presente, futuro, emoções, personalidade, porque a noção de alma é completamente irreal), sobre a sua obra. Em qualquer quadro de Tanguy, de Magritte, Éluard, Ernst, Miro, conseguimos, após muito estudo analítico, descodificar o propósito da obra. Sim, porque toda a obra surrealista tem determinado propósito. Nada é feito apenas pelo acto de fazer, tudo tem um certo significado, mais profundo, mais inteligente e interessante que a própria “alma” em si.

Depois deste breve esclarecimento, volto ao tema: Construção Mole com Feijões Cozidos (Premonição da Guerra civil)

Este quadro, pintado em 1936 pelo artista catalão, Salvador Dalí, é actualmente utilizado como meio para mostrar os dois pólos da Guerra, de satisfação total e de mutilação, destruição absoluta. Este quadro representa esses dois aspectos, misturando-os de maneira a que sejam quase indistinguíveis, inseparáveis.

Dalí era publicamente contra a guerra, achava-a desnecessária e terrível, e utilizou esta pintura como meio para demonstrar isso. Fernando Pessoa, anterior a Dalí, partilhava a mesma opinião. A guerra era, segundo ambos, o resultado de diferenças entre homens com ambições assustadoramente bestiais, desmedidas. Tanto o famoso poema de Pessoa, “O menino da sua mãe”, como “A premonição da guerra civil”, de Dalí, baseiam-se em dolorosos pensamentos de saudade, de morte, de consciência que a vida é efémera. Como disse Dalí “Time never stands still”, o tempo nunca pára, rola rapidamente, e termina quando menos esperamos.

Em relação aos elementos que constituem esta imagem, dos pouco que consegui apreender, destaca-se o pequeno homem á esquerda, parado sobre a pesada mão. Este simboliza Anneke e Nikki van Lugo, amigos de infância de Dalí, que tiveram um importante papel na formação da personalidade do pequeno Salvador.

Os feijões cozidos podem significar as antigas oferendas catalãs aos deuses. Podem também significar a fome, a ausência de alimento durante a guerra civil espanhola. Provocando assim um significado ainda mais profundo acerca da morte e da vida.

_em construcção_

quinta-feira, 4 de Outubro de 2007

Teal Chair, Art and Tea

É estranho escrever para mim mesmo, nunca gostei de diários, mas estes fabulosos meses merecem uma curta descrição.

Imóvel,
Sem fala,
Acorrentado,
Iludido,
Apaixonado.


Não tive, não tenho, nunca terei um motivo para estar vivo. Embora estime muito o sangue que me corre, será mais útil aos abutres, que espero que poisem brevemente. Além de aborrecido, viver começa a tornar-se esmagadoramente doloroso. É cansativo, morrer lentamente, ser apunhalado little by little, sempre um pouco mais fundo, com cinzeis, bisturis e tacos de baseball. Se tivesse a coragem de Woolf, seguiria o mesmo caminho. Mas shhh, não tenho.
So, what to do?
Sorria, e espere pelo poisar dos abutres.

terça-feira, 2 de Outubro de 2007

Não-manifesto 3


"Woman who seek to be equal with men lack ambition. "
Timothy Leary

Manifesto 7 - Table


"I cannot see me... I cannot feel me... This isn't my reflection. My life's a blank page. Like a dinner table filled with unnecessary rage."

segunda-feira, 1 de Outubro de 2007

Não-manifesto 3

Salvador Dalí, El amor, Dulcinea del Toboso

De "yeeeeee" a D. Quixote.
O ano passado, em Barcelona, estive mais de uma hora a olhar para um senhor vestido de D. Quixote, um daqueles homens-estátua. Fiquei de boca aberta a olhar para o tipo, era impressionante.

É AGORA! Depois de anos a dizer, "nhá é muito grande", ou talvez "a barba dele não é sexy", decidi lê-lo. Tenho pena que seja uma edição de meados do século XX, e tem um português mais complicado que o original em castelhano.

Mas continua Cervantes.