sábado, 3 de Novembro de 2007

Cinzas

Luz.
Sombras.
Eco.
Silêncio.

"Aqui estou, sozinho novamente".

Sentado ao piano, suspira amargurado aos tantos prazeres em vão... O som ondulante de cada nota ressoa-lhe mecanicamente nos ouvidos, aumentando o peso metálico do seu coração. Aperta-lhe o peito, impedindo-o de tocar a derradeira nota. A melodia é deixada em suspenso... Ecoa pelas paredes brancas, rachadas por memórias presentes, encontradas uma última vez.

"O Passado é ouro... o Presente estala... o Futuro desvanece-se".

Ainda sentado, afagando o pescoço, olha a janela ocultada por cortinas nebulosas e brancas. É essa a cor que lentamente se dilui por toda a divisão, subindo pelos seus pés, invadindo o seu fino torso, dominando o seu peito frágil. Mas uma brancura fria, que em nada se assemelhava à serenidade celestial a que lhe costumam associar. Branco, a junção de todas as cores, de todas as tonalidades, mas também a ausência de vida, de emoções. Nada, simbolizava o nada, um vazio nostálgico e frígido.

Sem forças, deixa-se tomar por esta força invisível, que o conquista inevitavelmente. Ambos os braços caem para trás, tal como a sua cabeça, que pende como sinónimo de desesperança.
Ergue-se, pesado, enquanto a sua visão se dilui turva e indefinida. Esfrega os olhos, revelando uma expressão de profunda fatiga.
Afasta as cortinas, deslizando sensivelmente os seus dedos femininos ao longo da seda. Numa pose dramática, senta-se à beira da janela.

"Chove".

Suspira, olhando o seu reflexo jovem espelhado na janela. Esboça um sorriso breve e questionável. Avalia-se, olhando-se de soslaio; o cabelo, loiríssimo, usava consideravelmente curto e volumoso, o olhar fincava-se em tons azulados e verdes, ambos pálidos e inexpressivos, completo por um par de sobrancelhas arqueadas e escassas. A boca, outrora naturalmente vibrante, estava pintada por um baton demasiado escuro, de um vermelho carnal. Posso dizer que o seu queixo, forte e quadrado, seria a única característica que revelava o seu verdadeiro género. Todo seu rosto era assim, feminino, limpo e cuidadosamente maquilhado.
O sorriso desvanece-se quando o seu olhar pousa numa pequena ruga no canto da boca. A perfeição só-lhe era permitida quando sério e inexpressivo.

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