Devo começar por esclarece-lo acerca do verdadeiro significado da arte surreal, pois existem muitos mal-entendidos em relação a este estilo de arte moderna. Não, não é a acerca da loucura de certos artistas, de ideias disparatadas, ou de frases ou imagens aleatórias. Que isso fique bem esclarecido: surrealismo não é arte aleatória.
A arte surrealista, um movimento revolucionário, baseia-se nos elementos de surpresa, de imaginação ilimitada. Como disse André Breton, um poeta francês, fundador do surrealismo como estilo: “ Surrealismo é puro automatismo psíquico, a partir do qual se exprime, verbalmente ou por escrito, o verdadeiro mecanismo do pensamento”. É portanto, como qualquer outro movimento artístico, uma forma de expressão interior, mas muito mais analítica (ao mesmo tempo expressiva), realista e verdadeira do que qualquer outra. O pintor surrealista “despeja” toda a sua alma (com alma digo passado, presente, futuro, emoções, personalidade, porque a noção de alma é completamente irreal), sobre a sua obra. Em qualquer quadro de Tanguy, de Magritte, Éluard, Ernst, Miro, conseguimos, após muito estudo analítico, descodificar o propósito da obra. Sim, porque toda a obra surrealista tem determinado propósito. Nada é feito apenas pelo acto de fazer, tudo tem um certo significado, mais profundo, mais inteligente e interessante que a própria “alma” em si.
Depois deste breve esclarecimento, volto ao tema: Construção Mole com Feijões Cozidos (Premonição da Guerra civil)
Este quadro, pintado em 1936 pelo artista catalão, Salvador Dalí, é actualmente utilizado como meio para mostrar os dois pólos da Guerra, de satisfação total e de mutilação, destruição absoluta. Este quadro representa esses dois aspectos, misturando-os de maneira a que sejam quase indistinguíveis, inseparáveis.
Dalí era publicamente contra a guerra, achava-a desnecessária e terrível, e utilizou esta pintura como meio para demonstrar isso. Fernando Pessoa, anterior a Dalí, partilhava a mesma opinião. A guerra era, segundo ambos, o resultado de diferenças entre homens com ambições assustadoramente bestiais, desmedidas. Tanto o famoso poema de Pessoa, “O menino da sua mãe”, como “A premonição da guerra civil”, de Dalí, baseiam-se em dolorosos pensamentos de saudade, de morte, de consciência que a vida é efémera. Como disse Dalí “Time never stands still”, o tempo nunca pára, rola rapidamente, e termina quando menos esperamos.
Em relação aos elementos que constituem esta imagem, dos pouco que consegui apreender, destaca-se o pequeno homem á esquerda, parado sobre a pesada mão. Este simboliza Anneke e Nikki van Lugo, amigos de infância de Dalí, que tiveram um importante papel na formação da personalidade do pequeno Salvador.
Os feijões cozidos podem significar as antigas oferendas catalãs aos deuses. Podem também significar a fome, a ausência de alimento durante a guerra civil espanhola. Provocando assim um significado ainda mais profundo acerca da morte e da vida.
_em construcção_

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