Quinta-feira, 16 de Agosto de 2007

Manifesto 3 - Porcelana em Breu

Criação de personagem a partir de situação.

Porcelana em Breu

A noite estava, como ela previra, terrivelmente gelada e sombria. Tinha ainda vestidas as mesmas longas vestes do concerto e sentia-se, além de cansada, muito melancólica e soturna. Incomodada com algo, olha a janela, para a floresta que a rodeava: a carruagem caminhava rapidamente e a noite estava nublada, como se tivesse passado algum crime debaixo desses céus de breu. Quando inspira profundamente, o seu fino corpo treme pelo ar gelado. Procurava afagar as mãos, numa vã tentativa de se aquecer, quando, num súbdito momento, pára a carruagem e a jovem é projectada violentamente contra a frente, caindo debilmente no chão. Pergunta nervosamente o que se passara, mas não obtém resposta. O silêncio intimida-a. Decide então, a medo, sair da carruagem.

Depara-se com um cenário assustador: completamente sozinha a quilómetros de distância de qualquer aldeia humana. Decide procurar ajuda.

Passo ante passo, segue a estrada vagamente destacada entre as árvores, suando friamente, olhando, arregalada e perdida, em todas as direcções. O caminho, iluminado pela lua, desaparece quando é tapada pela mais espessa das nuvens. A escuridão reina por momentos, e é nesse instante que, avançando como uma chacal, surge a grande criatura.

Cega pela ausência de luz, a jovem é incapaz de escapar ao inevitável ataque mortífero do vulto, e é trespassada por uma boca sedenta. Um grito doloroso escapa-lhe entre as palavras de aflição, enquanto segura o peito ferido. Era uma dor deveras insuportável, e nada mais se lembra de fazer além de fugir. Fugir.

A ferida continuava viva, o sangue não estacara e manchava-lhe o seu vestido branco. A lua não surgia e a vítima corria na mais inultrapassável das trevas.

O demónio, divertido, perseguia-a salivando o aroma doce do fluxo que ferira aquela mulher. Estava sedento de sangue, sedento de carne, sedento de morte.

Então acontece o mais terrível dos azares, a jovem cai estrondosamente no chão, tropeçando num obstáculo. A lua surge finalmente, fantasmagórica, para desaparecer depois, sendo fatalmente coberta pelo seu perseguidor, tapando toda a claridade pela sua tez pavorosamente branca. Ela observa-o em pânico. Era um homem-monstro, uma besta misturada com um belo homem, uma criatura dos infernos. Ele abaixa-se e sorri-lhe, numa estranha expressão meio diabólica, meio familiar. O homem afaga-lhe a sua bonita face de porcelana fria.

Apenas quando se abaixa para o seu nervoso pescoço, é que a jovem repara nos seus olhos; reconhece-os de outro lugar. Mas era tarde demais, o ritual começara, e o sangue já fluía do seu pescoço delicado para a língua do seu atacante. Era o fim, e a inocente fora morta pelo seu antigo amante, a besta desses céus negros.

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